Aeris Energy pede recuperação extrajudicial para renegociar R$ 1,52 bilhão em dívidas

A fabricante brasileira de pás para turbinas eólicas Aeris Energy entrou com um pedido de recuperação extrajudicial para renegociar aproximadamente R$ 1,52 bilhão em dívidas, em mais um episódio que evidencia as dificuldades financeiras enfrentadas por importantes companhias nacionais. A solicitação foi protocolada na terça-feira (3 de novembro), na 3ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo, e comunicada oficialmente ao mercado por meio de fato relevante encaminhado à Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Fundada em 2010, a Aeris possui uma importante estrutura industrial no Complexo do Pecém, no Ceará, onde fabrica pás de grande porte utilizadas na geração de energia eólica. A empresa tem ações negociadas na Bolsa de Valores brasileira sob o código AERI3 e atua como fornecedora de equipamentos para projetos de energia renovável. Segundo a administração, a recuperação extrajudicial busca reorganizar os compromissos financeiros, reduzir o endividamento e permitir a continuidade das atividades. A companhia informou que pretende preservar empregos, contratos comerciais e operações industriais durante o processo. Apesar da dimensão da dívida, a medida não representa uma declaração de falência nem determina o fechamento de suas instalações.

O plano apresentado pela Aeris abrange aproximadamente R$ 1,524 bilhão em créditos quirografários não correntes, conforme valores apurados em 31 de outubro de 2026. Na prática, a negociação envolve principalmente obrigações financeiras que não possuem determinadas garantias reais ou fiduciárias, deixando de fora dívidas relacionadas ao fornecimento habitual de bens e serviços necessários à manutenção das operações. Créditos trabalhistas, tributários e decorrentes de acidentes de trabalho também não estão incluídos na proposta. A empresa informou que já obteve a adesão de credores responsáveis por 42,18% dos valores considerados para o cálculo do quórum de aprovação. Esse percentual supera o mínimo de um terço exigido pela legislação para a apresentação do pedido nessa modalidade. Entretanto, a Aeris ainda precisa conquistar o apoio de credores que representem mais da metade dos créditos abrangidos para alcançar o percentual necessário à homologação judicial. O prazo estabelecido é de 90 dias, contados da apresentação do pedido. Nesse período, a administração deverá continuar negociando condições de pagamento, possíveis alterações de garantias e alternativas para obter novos recursos financeiros. O objetivo é estabelecer uma estrutura de endividamento compatível com a capacidade de geração de receitas da companhia.

A deterioração da situação financeira da Aeris vem sendo observada nos balanços apresentados ao mercado nos últimos anos. De acordo com informações divulgadas pela empresa e analisadas pela imprensa econômica, a receita operacional líquida caiu aproximadamente 50,8% em 2025, passando de R$ 1,52 bilhão, registrado no ano anterior, para cerca de R$ 746 milhões. A companhia encerrou 2025 com prejuízo líquido de aproximadamente R$ 901,2 milhões, depois de já ter apresentado perdas superiores a R$ 900 milhões em 2024. Os resultados negativos continuaram em 2026. No segundo trimestre deste ano, a fabricante registrou prejuízo líquido de R$ 152 milhões e receita operacional líquida de R$ 129,3 milhões. O endividamento líquido alcançou aproximadamente R$ 1,94 bilhão em junho, crescimento de 19% em relação ao mesmo período do ano anterior. Esses indicadores demonstram que o valor submetido à recuperação extrajudicial não corresponde necessariamente ao endividamento total da empresa, pois a negociação envolve apenas determinadas categorias de créditos. Entre os fatores relacionados ao agravamento da situação estão o aumento das despesas financeiras, os encargos sobre empréstimos e a redução da demanda por equipamentos destinados a novos parques eólicos.

As dificuldades também atingiram a produção industrial da Aeris no Ceará. A empresa enfrentou uma redução significativa dos pedidos de pás para turbinas eólicas, consequência do enfraquecimento dos investimentos em novos projetos de geração de energia. Ao final de 2025, seis das oito linhas de produção existentes em sua unidade industrial estavam desativadas. Durante o segundo trimestre de 2026, a companhia iniciou um processo de reativação de quatro linhas, buscando recuperar parte da capacidade produtiva e atender à demanda prevista para os meses seguintes. A situação demonstra os desafios enfrentados por uma indústria diretamente relacionada à expansão das fontes renováveis de energia. Embora o Brasil possua condições naturais favoráveis à geração eólica, o desenvolvimento de novos projetos depende de investimentos, contratos de fornecimento, financiamento e perspectivas de consumo de eletricidade. Quando essas condições se tornam desfavoráveis, fabricantes de equipamentos podem enfrentar queda nas encomendas e dificuldades para manter suas estruturas industriais. A Aeris possui uma localização considerada estratégica, próxima ao Porto do Pecém, o que facilita o transporte de componentes de grandes dimensões para clientes brasileiros e internacionais. Entretanto, essa vantagem logística não foi suficiente para impedir o agravamento de seus resultados financeiros.

O pedido de recuperação extrajudicial representa mais uma tentativa da companhia de reorganizar suas finanças. Em agosto de 2026, a Aeris já havia iniciado procedimentos de mediação com credores, acompanhados de medidas judiciais destinadas a suspender temporariamente determinadas cobranças. As negociações buscavam criar condições para uma solução consensual, evitando que o avanço das execuções comprometesse a continuidade das operações. O modelo de recuperação extrajudicial permite que uma empresa negocie diretamente com credores abrangidos por um plano e posteriormente solicite sua homologação pela Justiça. Diferentemente da recuperação judicial tradicional, o procedimento geralmente envolve uma estrutura mais concentrada de renegociação, embora continue submetido a exigências legais e à fiscalização judicial. No caso da Aeris, o conselho de administração aprovou o ajuizamento do pedido, que ainda deverá ser submetido à ratificação dos acionistas em assembleia geral extraordinária. A administração também informou que as condições financeiras definitivas serão consolidadas em uma versão atualizada do plano. A possibilidade de novos recursos, mudanças nos prazos de pagamento e ajustes nas garantias integra as alternativas consideradas. Entretanto, os detalhes finais dependerão das negociações com os credores e da avaliação judicial sobre o cumprimento dos requisitos estabelecidos pela legislação.

A situação da Aeris Energy também desperta preocupação sobre os efeitos que dificuldades financeiras prolongadas podem produzir na cadeia industrial de energia renovável. A companhia ocupa uma posição relevante na fabricação de componentes para parques eólicos, atividade que envolve fornecedores de matérias-primas, empresas de transporte, trabalhadores especializados e prestadores de serviços. Por esse motivo, a continuidade de suas operações possui importância para diferentes setores econômicos, especialmente no Ceará. A administração afirma que pretende preservar as linhas de fornecimento necessárias ao funcionamento da empresa e manter suas atividades durante a reorganização financeira. Entretanto, o sucesso da estratégia dependerá da capacidade de ampliar a adesão dos credores, estabelecer condições sustentáveis para o pagamento das dívidas e recuperar os resultados operacionais. O comportamento da demanda por equipamentos eólicos também será determinante para o futuro da companhia. No mercado financeiro, as ações da Aeris acumularam forte desvalorização ao longo dos últimos meses, refletindo a preocupação dos investidores com os prejuízos e o endividamento. A apresentação do pedido de recuperação extrajudicial representa, portanto, uma etapa importante, mas ainda não definitiva, do processo de reestruturação. Até o momento, o fato confirmado é que a fabricante busca renegociar aproximadamente R$ 1,52 bilhão, já conta com o apoio de parte relevante dos credores e pretende manter suas operações enquanto procura uma solução para recuperar a estabilidade financeira.