Presidente do Paraguai anuncia renúncia após crise bancária e pressão por impeachment

O presidente do Paraguai, Santiago Peña, anunciou sua renúncia nesta quinta-feira (5 de novembro), em meio a uma das maiores crises políticas e financeiras enfrentadas pelo país nos últimos anos. A decisão foi comunicada por meio de um vídeo publicado nas redes sociais, após o colapso do Ueno Bank, instituição financeira que atendia aproximadamente três milhões de clientes e administrava cerca de US$ 850 milhões em recursos públicos. A crise bancária provocou protestos em Assunção, capital paraguaia, e levou parlamentares da oposição a apresentar pedidos de impeachment contra o chefe do Executivo. A pressão política aumentou quando integrantes do próprio Partido Colorado, legenda de Peña, passaram a defender seu afastamento. Diante da possibilidade de perder o cargo por meio de um julgamento político no Congresso, o presidente decidiu apresentar sua renúncia, justificando a medida como necessária para preservar a estabilidade nacional e evitar o agravamento das tensões. O vice-presidente Pedro Alliana deverá assumir a Presidência, conforme os procedimentos constitucionais, e completar o mandato previsto até agosto de 2028. A saída de Peña representa uma mudança importante no cenário político sul-americano e ocorre em um momento de crescente preocupação com a segurança dos depósitos bancários e a responsabilidade das autoridades pela fiscalização do sistema financeiro.

A crise começou a se intensificar após o Banco Central do Paraguai determinar, em 2 de novembro, a abertura de um procedimento de resolução do Ueno Bank, diante de problemas considerados graves em sua situação financeira. Segundo o órgão regulador, a instituição apresentava um índice de solvência inferior à metade do mínimo exigido pela legislação paraguaia. A decisão resultou na suspensão das atividades habituais do banco, impedindo que milhões de clientes utilizassem normalmente contas, cartões e serviços digitais. O episódio provocou filas diante das agências e manifestações de pessoas preocupadas com a possibilidade de perder suas economias. A situação ganhou dimensão ainda maior porque o Ueno Bank administrava recursos públicos, incluindo valores vinculados a fundos previdenciários e outras instituições estatais. A exposição desses recursos levou parlamentares a questionar os mecanismos utilizados pelo governo para fiscalizar as operações da instituição. Diante da repercussão, o Banco Central anunciou medidas para proteger os depositantes e organizar a devolução dos valores. O sistema de garantia prevê cobertura de até 228,3 milhões de guaranis por depositante, enquanto uma primeira etapa de pagamentos contempla clientes que atendem a critérios específicos, com depósitos de até 10 milhões de guaranis. Apesar da gravidade da situação, o órgão regulador afirmou que o problema está concentrado no Ueno Bank e não representa, necessariamente, uma crise generalizada de todo o sistema financeiro nacional.

O envolvimento político de Santiago Peña no episódio passou a ser questionado em razão de seus vínculos anteriores com o grupo empresarial responsável pelo banco. Antes de assumir a Presidência, o político manteve participação societária em uma empresa ligada ao Grupo Vázquez, controlador do Ueno Bank, relação que teria sido encerrada em março de 2025. A proximidade empresarial e política provocou questionamentos sobre possíveis conflitos de interesse na fiscalização da instituição financeira. Parlamentares da oposição também levantaram suspeitas sobre a utilização de recursos previdenciários e a atuação de autoridades responsáveis por acompanhar a saúde financeira do banco. Essas acusações, entretanto, ainda dependem de investigação e não constituem comprovação de que Peña tenha participado pessoalmente de irregularidades. A crise resultou na abertura de procedimentos criminais contra dirigentes e pessoas relacionadas à instituição. Segundo informações divulgadas pela imprensa internacional, oito executivos foram detidos, enquanto dezenas de pessoas passaram a ser investigadas ou acusadas de possíveis irregularidades financeiras. Entre os problemas examinados estão operações de crédito envolvendo empresas relacionadas aos controladores do banco, falhas em registros contábeis e suspeitas de utilização de estruturas empresariais para ocultar a verdadeira situação patrimonial da instituição. O Ministério Público paraguaio deverá continuar analisando essas operações, independentemente da mudança no comando do Poder Executivo.

A pressão sobre o presidente aumentou significativamente na quarta-feira (4), quando manifestantes ocuparam ruas de Assunção exigindo a devolução dos depósitos e a responsabilização das autoridades envolvidas. Entre os participantes estavam aposentados, trabalhadores, estudantes e correntistas que afirmavam enfrentar dificuldades para acessar recursos necessários ao pagamento de despesas cotidianas. Os protestos também reuniram pessoas que consideravam insuficientes as respostas apresentadas pelo governo diante do colapso bancário. No Congresso, deputados da oposição intensificaram as articulações para instaurar um processo de impeachment contra Santiago Peña. O presidente da Câmara dos Deputados, Raúl Latorre, convocou sessões extraordinárias para discutir os pedidos apresentados. O cenário político tornou-se ainda mais delicado quando integrantes do Partido Colorado passaram a admitir a possibilidade de apoiar o afastamento do presidente. A perda de sustentação parlamentar enfraqueceu a capacidade de Peña de permanecer no cargo e aumentou as expectativas de uma votação decisiva. Na noite anterior à renúncia, o governo havia negado rumores sobre uma possível saída antecipada, afirmando que o presidente continuava trabalhando para solucionar os problemas enfrentados pelos depositantes. Entretanto, a evolução da crise e o avanço das discussões no Congresso modificaram o cenário político em poucas horas, culminando no anúncio da renúncia nesta quinta-feira.

Em seu pronunciamento, Santiago Peña afirmou que decidiu apresentar a renúncia pensando na estabilidade do Paraguai, na paz social e na preservação das instituições democráticas. O presidente também pediu desculpas à população por eventuais falhas cometidas durante sua administração, mas não assumiu responsabilidade direta pelas irregularidades financeiras investigadas. Peña declarou que sua principal preocupação era garantir a restituição dos valores pertencentes aos correntistas e proteger os recursos públicos envolvidos na crise. A manifestação ocorreu em meio à expectativa de que o vice-presidente Pedro Alliana assumisse a condução do país após a conclusão dos procedimentos necessários à formalização da mudança. Alliana é integrante do Partido Colorado e mantém uma trajetória política ligada ao grupo que governa o Paraguai. Sua chegada à Presidência deverá ocorrer em um ambiente de elevada pressão social, especialmente porque os problemas financeiros não serão resolvidos automaticamente com a substituição do chefe do Executivo. O novo governo precisará acompanhar a reorganização do sistema de pagamentos aos depositantes, assegurar a continuidade das investigações e demonstrar capacidade de restabelecer a confiança nas instituições responsáveis pela fiscalização bancária. A renúncia também deverá provocar alterações na composição do governo, nas articulações parlamentares e na relação entre os diferentes setores do Partido Colorado, que enfrentará o desafio de preservar sua estabilidade interna depois de uma crise que atingiu diretamente a Presidência da República.

A saída de Santiago Peña encerra antecipadamente uma etapa do governo iniciado em agosto de 2023 e abre um período de incertezas políticas e econômicas no Paraguai. O país vinha sendo apresentado como um destino atrativo para investimentos estrangeiros, especialmente por causa de seu crescimento econômico e de políticas voltadas à estabilidade financeira. Entretanto, o colapso de uma instituição bancária com milhões de clientes e participação expressiva de recursos públicos provocou questionamentos sobre a eficiência da fiscalização estatal e os riscos associados às relações entre grupos empresariais e autoridades políticas. Para o Brasil, principal parceiro comercial do Paraguai, os acontecimentos também merecem atenção devido à integração econômica entre os dois países e à presença de empresas brasileiras no território paraguaio. Apesar disso, ainda não existem elementos suficientes para determinar quais serão as consequências econômicas da crise sobre os investimentos estrangeiros ou sobre as relações comerciais regionais. A prioridade imediata das autoridades será garantir a proteção dos depositantes, dar continuidade às investigações e concluir o processo institucional de sucessão presidencial. Enquanto isso, a renúncia de Peña demonstra a dimensão política alcançada pelo colapso do Ueno Bank, que deixou de ser apenas um problema financeiro e passou a provocar mudanças no comando do país. O desfecho das investigações poderá esclarecer se houve falhas de fiscalização, irregularidades administrativas ou responsabilidades individuais relacionadas à crise. Até lá, permanece fundamental distinguir as acusações apresentadas por parlamentares das conclusões efetivamente estabelecidas pelas autoridades judiciais.