Um agente da Polícia Federal que acompanhou de perto o período em que Luiz Inácio Lula da Silva esteve preso em Curitiba revelou detalhes pouco conhecidos sobre a rotina do presidente durante sua passagem pela prisão, entre abril de 2018 e novembro de 2019. As informações aparecem no livro “Banho de Sol — os 580 dias da prisão de Lula”, escrito pelo policial Jorge Chastalo Filho. A obra reúne lembranças, conversas e situações vividas durante o período em que o petista permaneceu sob custódia. Entre os episódios relatados estão o receio de que alguém pudesse colocar alguma substância na comida de Lula, as dificuldades enfrentadas nos primeiros dias e os momentos em que o então ex-presidente conversava sobre política e assuntos familiares.
Com 592 páginas organizadas em ordem cronológica, o livro apresenta os acontecimentos desde a chegada de Lula à sede da Polícia Federal, no Paraná. Um dos episódios lembrados pelo agente aconteceu durante o transporte de helicóptero, em abril de 2018. Segundo Chastalo, o clima dentro da aeronave exigiu uma intervenção do piloto, que pediu aos ocupantes que utilizassem o sistema de comunicação apenas para assuntos necessários ao voo. O policial também relata que a torre de controle do Bacacheri alertou sobre a gravação das conversas realizadas pelo rádio. O episódio mostra como a transferência do ex-presidente ocorreu em um ambiente de atenção e preocupação com os procedimentos de segurança.
O agente também contou que a possibilidade de Lula realmente ser preso surpreendeu parte dos profissionais envolvidos na operação. Segundo ele, havia dúvidas sobre como os acontecimentos se desenrolariam até a chegada do político à unidade da Polícia Federal. Ao encontrar o ex-presidente em uma cela simples, Chastalo afirmou ter sentido constrangimento diante da situação. O policial descreveu Lula como abatido naquele primeiro momento e relatou que, com o passar dos dias, os dois desenvolveram uma relação de convivência marcada por conversas frequentes. De acordo com o livro, o petista costumava se dirigir ao agente de maneira carinhosa, chamando-o de “querido”.
Uma das revelações que mais chamaram atenção envolve a alimentação do ex-presidente. Chastalo contou que, no segundo dia de custódia, decidiu solicitar uma refeição preparada fora da unidade policial. A medida, segundo ele, não foi motivada por qualquer problema com a qualidade da comida oferecida pela Polícia Federal. O agente explicou que pensou na possibilidade de alguém tentar colocar uma substância prejudicial na alimentação de Lula e preferiu adotar uma precaução adicional. O relato, entretanto, não apresenta evidências de que tenha existido uma tentativa real de envenenamento. Trata-se de uma preocupação pessoal mencionada pelo policial ao relembrar os cuidados adotados naquele período.
Outro episódio registrado na obra aconteceu quando Lula teve acesso ao banho de sol pela primeira vez, no quarto dia de prisão. Ao conhecer o espaço cercado por muros, o ex-presidente demonstrou insatisfação com a estrutura e comparou o local a uma jaula. A rotina de custódia também envolvia restrições sobre objetos pessoais e regras específicas para as visitas. Em determinado momento, Lula pediu uma bola para brincar com o neto Arthur durante os encontros familiares. O menino faleceu em 2019, aos sete anos, e o ex-presidente recebeu autorização para comparecer à despedida. A situação foi um dos momentos familiares mais delicados relatados durante sua permanência em Curitiba.
O livro também relembra que Lula teve poucas oportunidades de deixar a unidade policial durante o período em que esteve preso. Segundo a reportagem da revista Contigo!, as saídas autorizadas ocorreram para a despedida do neto e para um compromisso judicial. O petista também tentou comparecer ao velório do irmão Vavá, mas não conseguiu obter autorização a tempo. Além dos acontecimentos familiares, o agente descreve conversas sobre o cenário político brasileiro. Lula fazia críticas à Operação Lava Jato e comentava sua opinião sobre diferentes figuras públicas. Em uma dessas conversas, mencionou Marina Silva, afirmando que gostava dela, embora considerasse a política bastante ligada à religião.
A prisão de Lula começou em abril de 2018, após decisões judiciais relacionadas às investigações da Operação Lava Jato. O ex-presidente permaneceu na sede da Polícia Federal em Curitiba até novembro de 2019, quando foi libertado após o Supremo Tribunal Federal mudar o entendimento sobre o início do cumprimento da pena antes do encerramento definitivo dos recursos. Em abril de 2021, o STF anulou as condenações de Lula relacionadas aos processos julgados pela 13ª Vara Federal de Curitiba, ao reconhecer que aquela unidade judicial não tinha competência para analisar os casos. A decisão permitiu que o petista recuperasse seus direitos políticos e voltasse a disputar eleições.
As revelações apresentadas por Jorge Chastalo Filho oferecem uma visão dos bastidores de um dos períodos mais marcantes da trajetória política de Lula. Ao reunir situações do cotidiano, conversas informais e preocupações relacionadas à segurança, o policial apresenta detalhes que não costumavam aparecer nas notícias sobre os processos judiciais. A obra também mostra como questões familiares e acontecimentos políticos fizeram parte da rotina do ex-presidente durante aqueles meses. Anos depois, com Lula novamente à frente do governo federal, os relatos voltam a despertar interesse por apresentar lembranças de alguém que acompanhou diretamente sua permanência na Polícia Federal.






