Ex-presa política venezuelana faz alerta sobre Lula

A história de María Oropeza, ex-chefe de campanha do líder opositor Edmundo González Urrutia no estado de Portuguesa, na Venezuela, revela os bastidores de uma das experiências mais difíceis que um ser humano pode viver: ser detida sem explicações, sem mandado judicial e levada para uma das prisões mais conhecidas do regime chavista. Em entrevista exclusiva à coluna Entrelinhas, ela compartilha sua trajetória, os dias encarcerada no Helicoide e suas reflexões sobre o caminho que a Venezuela precisa trilhar para reconstruir sua democracia, além de alertar a América Latina sobre os sinais que precedem a perda das liberdades.

A invasão que mudou sua vida

María recorda com clareza a noite em que foi detida. Já prestes a dormir, ouviu barulhos no corredor de sua própria casa. Eram agentes da Direção de Contrainteligência Militar (DGCIM), que invadiram o imóvel sem apresentar nenhuma ordem de prisão ou de busca. Ao pedir que mostrassem algum documento oficial, recebeu uma resposta que demonstrava o quanto as regras já haviam sido abandonadas: “Isso não é mais usado agora”. Como não conseguiram abrir a porta, decidiram derrubá-la com um tubo de metal. Ela supõe que o motivo de sua busca foi o sucesso da oposição nas eleições em seu estado — uma vitória expressiva que pareceu incomodar profundamente as autoridades da época. Nunca lhe foram apresentadas acusações formais.

“Um depósito de gente”: os dias no Helicoide

O que encontrou dentro daquele centro de detenção transcende o que se imagina sobre um sistema prisional. Em uma cela de apenas 4 por 3 metros, compartilhada com outras cinco mulheres, ela chegou a passar até 40 dias seguidos sem ver a luz do sol. Não havia janelas; não se sabia se era dia ou noite. O banheiro existia, mas a água era cortada como forma de controle. Roedores circulavam livremente enquanto os presos permaneciam trancados sob chave 24 horas por dia. Os primeiros oito meses foram especialmente difíceis: funcionários entravam apenas para provocar e humilhar. Embora tenham evitado agressões físicas explícitas contra presos políticos, o tratamento psicológico foi sistematicamente cruel — o que ela classifica como “tortura branca”, desenhada para fazer a pessoa duvidar de si mesma, sem deixar marcas visíveis no corpo.

Queda de Maduro é um avanço, mas não é o fim do caminho

Libertada após os acontecimentos de 3 de janeiro com a detenção de Nicolás Maduro, María celebra a nova etapa, mas alerta contra ilusões precipitadas. “A queda de Maduro não foi suficiente para encerrar o regime”, afirma com clareza. Ela ressalta que Delcy Rodríguez ainda exerce influência sobre estruturas do poder, que mais de 300 presos políticos continuam detidos e que grupos repressivos não desapareceram completamente. Para ela, a verdadeira libertação virá apenas com um processo completo de transição que leve a eleições livres, transparentes e supervisionadas internacionalmente. A líder em quem deposita maior confiança para conduzir esse processo é María Corina Machado, reconhecida por sua legitimidade junto à maioria da população venezuelana.

Verdade, justiça e memória como bases do futuro

María defende que nenhuma reconciliação verdadeira é possível sem que se faça justiça. Propõe a criação de uma Comissão da Verdade, integrada por especialistas nacionais e internacionais independentes, que investigue cada caso de perseguição e detenção. Os responsáveis por abusos devem responder perante o Judiciário, e as vítimas têm direito a reparação integral. Também sugere que centros de detenção como o Helicoide sejam transformados em museus — não para reviver sofrimentos, mas para construir memória histórica. “Nunca mais repetir esse horror, mas também nunca esquecer como as estruturas do poder podem se voltar contra seu próprio povo”, explica.

Lições que a América Latina não pode ignorar

Quando perguntada sobre os sinais que outros países deveriam observar, María é direta: a erosão da democracia raramente acontece de um dia para o outro. Ela lista indícios que merecem atenção: a dificuldade de alternância no poder, a perseguição a opositores, a confusão entre instituições de Estado e interesses de governo, e a retórica de proteção aos mais pobres que convive com a criminalização de quem pensa diferente. Embora suas afirmações sobre o Brasil e sobre o presidente Lula sejam contundentes e refletem sua própria experiência e visão de mundo, essas preocupações — sobre independência dos Poderes, liberdade de expressão e respeito aos direitos políticos — são temas legítimos de debate em toda a região. Cada sociedade, lembra ela, tem o dever de vigiar e cuidar de suas instituições antes que se tornem frágeis demais para se defender.

A liberdade exige vigilância permanente

A mensagem final de María Oropeza é de esperança alicerçada na responsabilidade cidadã. A liberdade não é um ponto de chegada, mas um exercício diário que precisa ser renovado por cada geração. Que a experiência dolorosa da Venezuela sirva de reflexão: que cada país fortaleça suas instituições, valorize a alternância democrática e cuide para que nenhum cidadão seja, jamais, tratado como um número ou esquecido em um espaço escuro sem ver a luz do sol. A história de María é um lembrete de que quando a Justiça falha, a voz de quem sobrevive se torna a mais importante ferramenta de todos nós.