As mudanças climáticas continuam ampliando os desafios enfrentados por milhões de pessoas em diferentes regiões do planeta. Um novo alerta divulgado pela Organização das Nações Unidas (ONU), por meio do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), chama a atenção para uma situação que exige cada vez mais atenção dos governos: aproximadamente 90 milhões de pessoas deslocadas à força vivem em países altamente expostos aos riscos relacionados ao clima.
O levantamento, divulgado em 6 de novembro de 2026, aponta que essas populações estão especialmente vulneráveis a fenômenos como secas prolongadas, inundações e períodos de calor extremo. O documento também destaca que a combinação entre dificuldades sociais, conflitos e alterações ambientais torna a recuperação dessas comunidades ainda mais complicada.
De acordo com o ACNUR, quase três em cada quatro pessoas deslocadas à força no mundo vivem atualmente em países que apresentam exposição elevada ou extrema aos riscos climáticos. O cenário demonstra que a crise ambiental não está relacionada apenas às condições da natureza, mas também à segurança, à moradia e às oportunidades de reconstrução da vida de milhões de famílias.
Um dos principais pontos apresentados pelo relatório é a relação entre deslocamento populacional e alterações no clima. Muitas pessoas já precisaram deixar suas casas por diferentes motivos e, ao chegarem a outros territórios, acabam encontrando dificuldades ambientais que comprometem sua adaptação.
Em países como Afeganistão e Bangladesh, por exemplo, a exposição a eventos climáticos representa um desafio importante para comunidades que já enfrentam limitações econômicas e sociais. A falta de água potável, as mudanças nos períodos de chuva e as temperaturas cada vez mais elevadas podem dificultar atividades básicas, como preparar alimentos, manter pequenas plantações e garantir condições adequadas de moradia.
O relatório também apresenta situações vividas por refugiados que precisam percorrer distâncias maiores para encontrar água. Em algumas localidades do Chade, por exemplo, a redução dos recursos hídricos disponíveis tem tornado a rotina das famílias mais difícil.
Essas experiências mostram que os efeitos das mudanças climáticas não aparecem somente em grandes acontecimentos. Muitas vezes, eles são percebidos nas dificuldades enfrentadas diariamente por pessoas que dependem diretamente dos recursos naturais.
Outro aspecto importante destacado pela ONU envolve as condições encontradas por refugiados que conseguem retornar aos seus países de origem. Segundo o levantamento, mais de dois terços dos retornos registrados durante o primeiro semestre de 2026 aconteceram em países altamente vulneráveis aos riscos climáticos.
Isso significa que voltar para casa nem sempre representa o encerramento das dificuldades. Mesmo depois de conseguirem retornar, muitas famílias precisam lidar com a falta de água, alterações no regime de chuvas e problemas na infraestrutura das regiões onde vivem.
A Síria aparece como um dos exemplos mencionados no documento. O país recebeu de volta milhões de pessoas deslocadas, mas continua enfrentando dificuldades relacionadas à disponibilidade de água e às condições ambientais. Em maio de 2026, inundações ao longo do rio Eufrates também provocaram danos em residências e afetaram milhares de moradores.
A situação reforça a importância de criar condições para que o retorno dessas populações aconteça de maneira sustentável, com acesso a serviços básicos e infraestrutura adequada. As projeções apresentadas pelo ACNUR também chamam a atenção para o aumento das temperaturas em determinadas regiões.
Na África Subsaariana, um em cada três assentamentos de refugiados poderá enfrentar pelo menos 100 dias de calor extremo por ano até 2050. Em algumas localidades da Etiópia, a estimativa aponta para períodos superiores a 200 dias anuais de temperaturas perigosas.
Esse cenário pode afetar diretamente a saúde, a alimentação e as atividades profissionais das comunidades. Pessoas que vivem em abrigos com pouca ventilação e acesso limitado à energia elétrica enfrentam dificuldades adicionais para lidar com temperaturas elevadas.
Além disso, a previsão de um episódio intenso do fenômeno El Niño aumenta a preocupação com possíveis alterações nos padrões de chuva e temperatura em diferentes partes do mundo. Na África Oriental, o ACNUR estima que inundações severas poderão provocar o deslocamento de até 3 milhões de pessoas na Somália, no Quênia, no Sudão do Sul e em Uganda até o final de 2026.
Diante desse panorama, a organização defende que governos e instituições internacionais ampliem os investimentos destinados à adaptação climática.
Um dos problemas identificados é a distribuição desigual dos recursos financeiros. Segundo o relatório, países frágeis ou afetados por conflitos recebem apenas cerca de 10% do financiamento climático global, apesar de concentrarem algumas das populações mais vulneráveis.
A questão deverá ganhar espaço nas discussões da COP31, conferência climática das Nações Unidas prevista para acontecer em Antalya, na Turquia. Entre as prioridades estão investimentos em infraestrutura, abastecimento de água, moradias mais preparadas para eventos climáticos e projetos capazes de fortalecer comunidades que vivem em regiões de maior risco.
O desafio não está apenas em reduzir as emissões responsáveis pelo aquecimento global. Também é necessário preparar os territórios para as mudanças que já estão acontecendo.
O alerta envolvendo 90 milhões de pessoas demonstra que as mudanças climáticas precisam ser tratadas como uma questão que ultrapassa as fronteiras ambientais. Seus efeitos alcançam a economia, a organização das cidades, a segurança alimentar e as condições de vida de milhões de famílias.
Embora os países apresentem diferentes níveis de responsabilidade e capacidade de investimento, as consequências ambientais podem atingir principalmente quem possui menos recursos para se adaptar. Por isso, a ONU defende uma participação mais efetiva das nações no desenvolvimento de soluções de longo prazo.
O fortalecimento de políticas públicas, a ampliação do financiamento internacional e o planejamento das regiões vulneráveis são medidas fundamentais para reduzir os impactos. O relatório deixa uma mensagem importante: enfrentar as mudanças climáticas também significa proteger pessoas, garantir oportunidades e permitir que comunidades inteiras tenham condições de construir um futuro mais seguro.






