A Justiça do Paraguai determinou a prisão preventiva do empresário Federico Miguel Vázquez Villasanti, de 36 anos, fundador e principal acionista do Ueno Bank, instituição financeira que se tornou o centro de uma crise econômica e política no país. A decisão foi tomada na quinta-feira (5 de novembro) pelo juiz Rodrigo Estigarribia, especializado em crimes econômicos, após investigações apontarem suspeitas de irregularidades em operações bancárias envolvendo empresas ligadas ao grupo controlador da instituição. Conhecido como Miguel Vázquez, o empresário construiu sua trajetória à frente de negócios familiares e ganhou destaque pela rápida expansão do Ueno Bank, que chegou a atender aproximadamente três milhões de clientes. Na imprensa brasileira, passou a ser chamado de “Vorcaro paraguaio”, em uma comparação com Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. A semelhança apontada por reportagens envolve a ascensão de jovens empresários no mercado financeiro, o crescimento acelerado de suas instituições e as investigações sobre operações bancárias. Entretanto, não há comprovação de que os dois empresários tenham atuado em conjunto ou participado de um mesmo esquema financeiro. A prisão de Vázquez representa mais um desdobramento da crise que levou o Banco Central paraguaio a intervir na instituição e provocou questionamentos sobre a fiscalização do sistema bancário.
A trajetória empresarial de Miguel Vázquez começou muito antes da criação do Ueno Bank. A origem de seu conglomerado familiar remonta a 1945, quando seu avô iniciou uma oficina mecânica em Assunção, capital paraguaia. Com o passar das décadas, os negócios foram ampliados para diferentes segmentos, incluindo comércio de veículos, agronegócio, serviços financeiros e outras atividades empresariais. Em 1984, o pai de Miguel fundou a Credicentro, empresa dedicada à concessão de crédito e ao atendimento de consumidores que enfrentavam dificuldades para acessar os serviços bancários tradicionais. Segundo informações apresentadas pelo próprio empresário em seu perfil profissional, ele assumiu a direção executiva da companhia em 2008, quando tinha apenas 18 anos. Posteriormente, a instituição passou por um processo de transformação que resultou na criação da Ueno Holding, em 2022. No ano seguinte, o projeto financeiro ganhou uma nova dimensão com o desenvolvimento do Ueno Bank, que investiu em tecnologia, serviços digitais e estratégias de expansão comercial. Vázquez também afirma ter formação acadêmica em marketing pela Universidade de Miami e especialização na área financeira. Sob sua liderança, o Grupo Vázquez passou a reunir mais de 20 empresas, com atuação em diferentes setores econômicos e milhares de funcionários. Informações divulgadas pelo próprio conglomerado apontavam faturamento diário superior a US$ 1 milhão, embora esse número corresponda a uma declaração institucional da empresa, e não a uma auditoria independente apresentada nas reportagens.
O crescimento do Ueno Bank transformou Miguel Vázquez em um dos empresários mais conhecidos do setor financeiro paraguaio. A instituição apostou em um modelo de atendimento digital, programas de benefícios e expansão de sua presença comercial para conquistar consumidores em diferentes regiões do país. Em poucos anos, o banco passou a informar uma base próxima de três milhões de clientes, número expressivo para uma população estimada em pouco mais de seis milhões de habitantes. A companhia também ampliou sua visibilidade por meio de patrocínios esportivos e campanhas publicitárias de grande alcance. O projeto de Vázquez incluía a ambição de transformar a instituição em uma empresa avaliada em mais de US$ 1 bilhão e, futuramente, abrir seu capital na Bolsa de Nova York. Entretanto, a velocidade dessa expansão passou a provocar questionamentos sobre a qualidade dos ativos, a concessão de empréstimos e os mecanismos de controle das operações. A situação se agravou quando autoridades reguladoras identificaram problemas relacionados à documentação de créditos e ao registro de valores nos demonstrativos financeiros. Segundo as informações divulgadas pelo Banco Central paraguaio, a revisão dos balanços revelou uma deterioração significativa da capacidade financeira da instituição. O índice de solvência chegou a aproximadamente 5,56%, enquanto o mínimo exigido pela regulamentação era de 12%. Diante desse cenário, as autoridades iniciaram um procedimento de resolução do banco, com o objetivo de organizar seus ativos e proteger os depósitos dos clientes.
As investigações relacionadas ao Ueno Bank concentram-se em suspeitas de operações financeiras que poderiam ter beneficiado empresas vinculadas aos próprios controladores da instituição. Entre os episódios examinados pelo Ministério Público está uma suposta venda simulada de carteira de crédito no valor de aproximadamente US$ 74,4 milhões. De acordo com a acusação, o banco teria utilizado recursos provenientes de sua própria estrutura financeira para realizar uma operação apresentada como transferência de créditos a terceiros. Os investigadores procuram esclarecer se a movimentação foi utilizada para melhorar artificialmente os indicadores contábeis da instituição e ocultar dificuldades relacionadas à recuperação dos valores emprestados. O caso envolve acusações como lesão de confiança e tentativa de fraude, que deverão ser examinadas pelas autoridades judiciais paraguaias. Ao todo, 27 pessoas foram formalmente incluídas no processo investigativo. Na quinta-feira, o juiz Rodrigo Estigarribia determinou a prisão preventiva de seis ex-dirigentes, entre eles Miguel Vázquez e o presidente do banco, Juan Manuel Gustale. Outras duas investigadas receberam autorização para cumprir prisão domiciliar mediante condições estabelecidas pela Justiça. A defesa de Vázquez sustenta que o empresário está à disposição das autoridades e busca substituir sua prisão por uma medida menos restritiva. A decisão judicial tem natureza cautelar e não representa reconhecimento definitivo de culpa. A responsabilidade individual de cada investigado dependerá da análise das provas e do andamento do processo.
A dimensão do patrimônio de Miguel Vázquez também passou a despertar atenção após operações realizadas pelas autoridades em sua residência, localizada em Assunção. Durante uma ação policial na quarta-feira (4), os investigadores encontraram nove veículos de alto padrão, incluindo esportivos e utilitários de luxo, com valor conjunto estimado em aproximadamente US$ 1,4 milhão. Entre os automóveis identificados estavam modelos das marcas Porsche, Bentley, Mercedes-Benz e BMW. A vistoria também revelou a presença de um grande unicórnio decorativo, elemento que chamou atenção por sua associação simbólica ao objetivo do empresário de criar uma companhia bilionária. Na noite de quinta-feira, uma nova operação contou com a participação de representantes do Ministério Público, da Polícia e do órgão responsável pela administração de bens apreendidos, resultando na retirada dos veículos da propriedade. Apesar da repercussão das imagens, a existência de bens de luxo não constitui, isoladamente, prova de irregularidade financeira. A investigação deverá determinar a origem dos recursos envolvidos nas operações questionadas e verificar eventuais relações entre o patrimônio encontrado e os fatos sob apuração. Antes do agravamento da crise, Vázquez havia utilizado as redes sociais para rebater críticas à instituição, afirmando que o Ueno Bank operava dentro das normas do sistema financeiro e era acompanhado pelos órgãos reguladores. A intervenção posterior demonstrou que as autoridades identificaram problemas suficientemente graves para interromper as operações da instituição.
O caso também provocou consequências políticas de grandes proporções no Paraguai, especialmente em razão das relações empresariais anteriores entre o grupo controlador do Ueno Bank e o presidente Santiago Peña. O chefe do Executivo manteve participação em uma empresa vinculada ao Grupo Vázquez até março de 2025, circunstância que passou a ser examinada diante dos questionamentos sobre a fiscalização da instituição e a movimentação de recursos públicos. A crise se intensificou após o bloqueio temporário de contas e serviços financeiros, afetando milhões de clientes e provocando manifestações em Assunção. Na quinta-feira, Peña anunciou sua renúncia, mas o Congresso não aceitou a saída naquele momento e decidiu dar continuidade ao processo político que poderá resultar em sua destituição. Assim, o anúncio não significou uma transferência imediata e definitiva da Presidência para o vice Pedro Alliana. Paralelamente, o Ministério Público abriu investigações sobre possíveis falhas de fiscalização e a aplicação de recursos estatais no banco. As autoridades financeiras afirmam que trabalham para garantir a restituição dos depósitos protegidos e impedir que a situação comprometa a estabilidade do restante do sistema bancário. Para Miguel Vázquez, o futuro imediato dependerá das decisões judiciais sobre sua prisão e do avanço das apurações relacionadas às operações da instituição. O episódio representa uma mudança significativa na trajetória do empresário, que passou de protagonista da expansão dos serviços financeiros digitais a investigado em uma das maiores crises bancárias recentes do Paraguai. Entretanto, permanece fundamental distinguir as acusações apresentadas pelo Ministério Público das responsabilidades que ainda deverão ser estabelecidas judicialmente.






