O Paraguai atravessa uma das maiores crises políticas e financeiras dos últimos anos. O presidente Santiago Peña enfrenta um processo de impeachment no Congresso Nacional, em meio às repercussões do fechamento do Ueno Bank, instituição financeira que deixou milhões de clientes sem acesso imediato às suas contas e provocou uma onda de questionamentos sobre a atuação das autoridades do país. O caso ganhou novos desdobramentos nesta sexta-feira (6), quando o Senado retomou a análise das acusações contra o chefe do Executivo.
A situação se tornou ainda mais delicada depois que a Câmara dos Deputados aprovou, por unanimidade, a abertura do processo de impeachment. Foram 78 votos favoráveis à acusação, encaminhando a decisão para o Senado, responsável por conduzir o julgamento político e decidir se o presidente deverá perder o mandato.
A crise teve origem na intervenção do Banco Central paraguaio no Ueno Bank, instituição que enfrentava problemas relacionados aos seus indicadores de solvência. A autoridade monetária identificou irregularidades na situação financeira da empresa, incluindo operações de crédito envolvendo companhias relacionadas aos controladores do banco. A decisão de interromper as atividades provocou preocupação entre os clientes e levantou dúvidas sobre a segurança dos recursos depositados.
O impacto foi expressivo. O banco atendia aproximadamente três milhões de clientes e administrava cerca de US$ 850 milhões em depósitos públicos, incluindo recursos ligados ao sistema previdenciário. Com o fechamento das operações, milhares de pessoas passaram a enfrentar dificuldades para movimentar suas economias, enquanto trabalhadores e aposentados também demonstraram preocupação com os valores mantidos na instituição.
O envolvimento anterior de Santiago Peña com o grupo empresarial relacionado ao banco passou a ocupar o centro das discussões políticas. O presidente foi acionista da Ueno Holding, conglomerado ligado ao controle da instituição financeira, até março de 2025. Essa relação comercial motivou questionamentos da oposição sobre possíveis conflitos de interesses e a proximidade entre o governo e os responsáveis pela administração do banco.
Entre as acusações apresentadas pelos parlamentares estão suspeitas de favorecimento, falhas na fiscalização, possíveis irregularidades envolvendo recursos previdenciários e questionamentos sobre a atuação dos órgãos responsáveis pelo acompanhamento do sistema financeiro. Os opositores também cobram explicações sobre a concentração de dinheiro público na instituição e as decisões tomadas antes da intervenção.
É importante destacar que as acusações ainda precisam ser avaliadas pelas autoridades competentes. A abertura do processo de impeachment não representa, por si só, uma comprovação de responsabilidade criminal do presidente. Santiago Peña terá a oportunidade de apresentar sua defesa durante o julgamento político.
Diante do agravamento da crise, Peña anunciou sua intenção de renunciar à Presidência na quinta-feira (5). Entretanto, a sessão do Congresso convocada para analisar o pedido não conseguiu reunir o quórum necessário para deliberar sobre a saída. Com isso, a renúncia não foi formalmente aceita, e o processo de impeachment continuou em andamento.
A decisão de manter o julgamento ganhou importância porque uma eventual renúncia poderia abrir caminho para que Peña assumisse uma posição de senador vitalício, conforme previsto na legislação paraguaia. A oposição defende que o processo seja concluído para que as responsabilidades políticas sejam examinadas antes de qualquer mudança definitiva no comando do país.
Nesta sexta-feira, o Senado deve ouvir os argumentos da acusação e da defesa antes de decidir o futuro do presidente. Para que o impeachment seja aprovado e resulte na destituição, é necessário alcançar dois terços dos votos dos senadores, conforme estabelece a Constituição paraguaia.
Enquanto a disputa política avança, o Ministério Público também conduz investigações relacionadas ao colapso do banco. Executivos e outras pessoas ligadas à instituição foram alvo de medidas judiciais, e as autoridades procuram esclarecer como os problemas financeiros se desenvolveram e quais responsabilidades podem ser atribuídas aos envolvidos.
A crise também provocou manifestações populares e aumentou a pressão sobre o governo. Para muitos paraguaios, a principal preocupação é recuperar o acesso ao dinheiro e entender como uma instituição de tamanha dimensão chegou a uma situação tão delicada.
O desfecho do julgamento poderá representar uma mudança histórica na política paraguaia. Santiago Peña, que assumiu a Presidência em 2023 e tinha mandato previsto até 2028, agora depende da decisão dos senadores para saber se continuará no cargo. Além das consequências políticas, o episódio deverá deixar impactos importantes sobre a confiança da população nas instituições financeiras e na administração pública do país.






