Eleições nos EUA entram no caminho de decisão importante do governo Lula

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva acompanha com atenção as eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, previstas para esta terça-feira (3/11), e considera que o resultado poderá influenciar os próximos passos da relação diplomática entre os dois países. Em meio à crise provocada pela imposição de tarifas sobre produtos brasileiros e às recentes tensões envolvendo a saída do senador Flávio Bolsonaro (PL) para Miami, integrantes do governo brasileiro avaliam que o cenário político norte-americano poderá determinar o ritmo das negociações bilaterais.

As eleições, conhecidas como midterms, são consideradas um importante teste da popularidade e da força política do presidente Donald Trump. A votação vai renovar todas as 435 cadeiras da Câmara dos Representantes, além de 35 das 100 vagas do Senado. Também serão escolhidos governadores em 36 estados norte-americanos. Atualmente, o Partido Republicano controla as duas Casas do Congresso, mas existe a possibilidade de os democratas conquistarem espaço e alterarem a composição do Legislativo.

No entendimento de interlocutores do governo Lula ouvidos pelo Metrópoles, uma eventual mudança na maioria parlamentar poderá produzir consequências para a política interna e externa dos Estados Unidos. Caso os democratas conquistem uma ou ambas as Casas, Trump poderá enfrentar mais dificuldades para aprovar projetos de seu interesse. Além disso, a oposição terá condições de ampliar investigações sobre a administração federal, convocar autoridades e intensificar a fiscalização das decisões do Executivo.

Para o governo brasileiro, esse cenário pode abrir espaço para novas discussões sobre assuntos que fazem parte da agenda de Lula, mas encontram resistência na orientação política de Trump. Entre os temas mencionados estão questões ambientais e a regulação das grandes empresas de tecnologia, conhecidas como big techs. A avaliação é que um Congresso com maior presença democrata poderia criar oportunidades para tratar desses assuntos e favorecer iniciativas defendidas pela administração brasileira.

Apesar das expectativas, uma eventual mudança na composição do Congresso não significaria necessariamente uma alteração imediata na postura da Casa Branca. O presidente norte-americano continua tendo poderes relevantes sobre decisões comerciais e instrumentos de política externa. Dessa forma, mesmo que os republicanos percam espaço no Legislativo, Trump ainda poderá manter influência sobre medidas que afetam diretamente a relação com o Brasil.

O governo Lula também considera que as eleições norte-americanas podem ajudar a esclarecer o futuro das negociações comerciais entre os dois países. Um dos principais pontos pendentes é o chamado tarifaço, que provocou divergências diplomáticas após a aplicação de tarifas sobre produtos brasileiros. As conversas chegaram a ser retomadas em agosto, depois de uma ligação telefônica entre Lula e Trump, mas perderam força durante o período de incerteza eleitoral no Brasil.

Naquele momento, integrantes do governo petista avaliavam que a administração norte-americana aguardava a definição das eleições brasileiras antes de avançar nas negociações. A preocupação estaria relacionada à possibilidade de uma mudança no comando do Palácio do Planalto e à necessidade de saber com qual governo Washington teria de tratar os assuntos comerciais e diplomáticos. Com a reeleição de Lula, essa incerteza foi superada, mas as eleições legislativas dos Estados Unidos passaram a representar um novo fator de espera.

A crise entre Brasília e Washington também envolve questões políticas relacionadas à família Bolsonaro e a integrantes do governo norte-americano. Segundo a avaliação do Palácio do Planalto, a aproximação entre aliados do clã Bolsonaro e representantes dos Estados Unidos tem prejudicado o relacionamento institucional. Entre os nomes citados nesse contexto estão Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo, que mantêm relações com integrantes do Departamento de Estado norte-americano.

Outro episódio que aumentou a preocupação do governo brasileiro foi a saída de Flávio Bolsonaro do país. O senador deixou o Brasil na terça-feira (27/10) e desembarcou em Miami, na Flórida, após obter vistos de permanência nos Estados Unidos. De acordo com o relato apresentado pela reportagem, ele descumpriu uma decisão judicial ao deixar o território brasileiro. O caso acrescentou um novo elemento de tensão à relação entre os dois governos.

O Palácio do Planalto também acompanha as informações sobre um possível apoio da Casa Branca à permanência de Flávio nos Estados Unidos. A situação representa um desafio para a diplomacia brasileira, que procura impedir que o episódio seja tratado exclusivamente sob uma perspectiva política e provoque novos desgastes entre os países. A estratégia do governo Lula é manter as negociações dentro dos canais institucionais, evitando que as divergências envolvendo o senador se transformem em mais um obstáculo para a retomada do diálogo.

Com as eleições de meio de mandato no centro das atenções da administração Trump, o governo brasileiro espera compreender melhor o ambiente político norte-americano antes de definir os próximos movimentos. Até que o resultado seja conhecido, parte das tratativas comerciais e diplomáticas permanece sem avanços significativos. A expectativa em Brasília é que a nova composição do Congresso e o desempenho do presidente dos Estados Unidos ofereçam sinais sobre as possibilidades de reconstrução da relação bilateral, que continua marcada por divergências comerciais e políticas.