Flávio Bolsonaro relata reação do pai durante intimação da Polícia Federal em Brasília

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) revelou novos detalhes sobre a reação do ex-presidente Jair Bolsonaro ao presenciar a abordagem de agentes da Polícia Federal, em Brasília, no dia 26 de outubro. O episódio ocorreu quando o parlamentar deixava a residência do pai, onde o ex-presidente cumpre prisão domiciliar. Na ocasião, Flávio foi intimado a cumprir uma determinação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), que estabelecia a entrega de passaportes e a proibição de deixar o território nacional. Durante entrevista concedida ao jornalista Glenn Greenwald, divulgada nesta semana, o senador afirmou que Jair Bolsonaro acompanhou a abordagem e demonstrou preocupação com as possíveis consequências da medida. Segundo Flávio, o pai ficou emocionado e fez uma observação que ele interpretou como um alerta sobre o andamento das investigações. O ex-presidente teria perguntado: “Você sabe onde é que eles querem chegar, né?”. O relato ganhou repercussão neste sábado (7 de novembro), após publicação do Jornal da Cidade Online. A declaração também foi mencionada pelo senador em outras entrevistas, incluindo uma conversa com a Folha de S.Paulo. Embora a abordagem policial esteja confirmada, os detalhes sobre a reação emocional de Jair Bolsonaro são conhecidos a partir do relato apresentado por seu filho.

A intimação aconteceu um dia depois do segundo turno das eleições presidenciais de 2026, no qual Flávio Bolsonaro foi derrotado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). De acordo com informações divulgadas pela Polícia Federal, o órgão havia solicitado ao STF a adoção de medidas cautelares diante da identificação de um possível risco de saída do país pelo parlamentar. Alexandre de Moraes autorizou restrições relacionadas aos documentos de viagem e à comunicação do senador com outras pessoas investigadas. Na manhã de 26 de outubro, agentes federais procuraram Flávio para comunicar formalmente a decisão judicial. O parlamentar relatou que estava deixando a residência de Jair Bolsonaro quando foi abordado pelos policiais. Ainda naquele dia, publicou um vídeo nas redes sociais contestando a medida e afirmando que não tinha intenção de deixar o Brasil. Também declarou que entregaria os documentos exigidos e apresentaria sua defesa pelos meios legais. A situação provocou questionamentos entre apoiadores do senador, especialmente por ocorrer imediatamente depois da eleição presidencial. Entretanto, a proximidade entre os acontecimentos não comprova que a determinação judicial tenha sido motivada exclusivamente pelo resultado das urnas. A Polícia Federal informou que a solicitação estava relacionada a riscos identificados no âmbito de uma investigação em andamento.

A ordem judicial foi estabelecida no contexto de um inquérito que apura suspeitas de lavagem de dinheiro e possíveis movimentações financeiras irregulares envolvendo Flávio Bolsonaro e o advogado Willer Tomaz. Segundo informações divulgadas pela imprensa, os investigadores examinam operações relacionadas a empresas do setor de apostas e possíveis vínculos financeiros entre os envolvidos. Moraes também determinou que o senador não mantivesse contato com Tomaz enquanto permanecessem em vigor as medidas cautelares. Flávio rejeita as suspeitas e afirma ser alvo de perseguição política, interpretação que não foi comprovada por uma decisão judicial. A existência de investigação criminal, por sua vez, não significa que o parlamentar tenha sido condenado pelos fatos investigados. As medidas cautelares são instrumentos previstos na legislação para preservar investigações e evitar determinados riscos processuais, mas precisam obedecer aos requisitos estabelecidos pela Justiça. Outro aspecto importante é que a intimação recebida pelo senador não correspondia a um mandado de prisão. A determinação envolvia restrições de viagem, entrega de documentos e limitações de contato. Portanto, a avaliação de Jair Bolsonaro sobre uma possível prisão futura, conforme relatada pelo filho, representa uma preocupação atribuída ao ex-presidente e não uma consequência automática da decisão adotada pelo Supremo Tribunal Federal.

A situação ganhou novos desdobramentos depois que Flávio Bolsonaro deixou o território brasileiro e viajou para os Estados Unidos. O senador chegou ao país norte-americano após passar pela Argentina, contrariando a determinação judicial que proibia sua saída do Brasil. Em nota oficial publicada em 28 de outubro, a Polícia Federal informou que os passaportes brasileiros, comum e diplomático, haviam sido cancelados e que o nome do parlamentar fora incluído em um sistema de alerta migratório. O órgão também afirmou que Flávio havia sido intimado a entregar eventuais documentos de viagem de outras nacionalidades no prazo de 24 horas, determinação que não havia sido cumprida. Na mesma manifestação, a corporação esclareceu que não existia registro oficial da saída do senador pelos postos de controle migratório brasileiros. A PF destacou ainda que o descumprimento de medidas relacionadas aos documentos de viagem não caracteriza automaticamente a condição de foragido nem autoriza, por si só, uma prisão. As circunstâncias da saída passaram a ser investigadas. Flávio confirmou que deixou o país, mas evitou apresentar detalhes sobre o planejamento da viagem. O parlamentar sustenta que tomou a decisão por receio de sofrer medidas judiciais que considera injustas, enquanto as autoridades investigam o descumprimento das determinações anteriormente impostas.

Durante as entrevistas concedidas depois de sua chegada aos Estados Unidos, Flávio Bolsonaro passou a explicar que a intimação foi determinante para sua decisão de deixar o Brasil. Segundo o senador, o encontro com agentes federais e a reação atribuída ao pai aumentaram sua preocupação com a possibilidade de enfrentar uma situação semelhante à de Jair Bolsonaro. Na entrevista à Folha de S.Paulo, realizada em Miami, Flávio afirmou que conversou com a esposa sobre a possibilidade de viajar após receber a comunicação da Polícia Federal. Ele também declarou que não pretende repetir o que considera um erro cometido pelo pai ao retornar ao Brasil, em março de 2023, depois de passar aproximadamente três meses nos Estados Unidos. Jair Bolsonaro foi posteriormente condenado pelo Supremo Tribunal Federal por participação na tentativa de golpe de Estado relacionada ao resultado das eleições de 2022. Flávio, entretanto, rejeita a legitimidade das acusações contra o ex-presidente e afirma não confiar na condução das investigações que o envolvem. O senador também evitou revelar quem organizou ou financiou sua viagem. Apesar de estar fora do país, declarou que pretende continuar exercendo suas atividades parlamentares e participar das sessões do Senado sempre que houver possibilidade de acompanhamento remoto. Sua permanência nos Estados Unidos ainda depende da situação migratória e dos desdobramentos jurídicos relacionados ao caso.

A revelação sobre a reação atribuída a Jair Bolsonaro acrescenta uma dimensão familiar a um episódio que já havia provocado repercussão política e jurídica. Para Flávio, o comportamento do pai teria funcionado como um alerta sobre os riscos que acredita enfrentar no Brasil. Entretanto, as declarações do senador devem ser analisadas separadamente das informações confirmadas pelas autoridades. A abordagem realizada em 26 de outubro, a ordem de entrega dos passaportes e as restrições de viagem estão documentadas. Também está confirmada a saída de Flávio do território brasileiro e a investigação sobre o descumprimento das medidas impostas pelo Supremo. Por outro lado, não há comprovação independente dos sentimentos atribuídos a Jair Bolsonaro durante o encontro, assim como não existe decisão judicial demonstrando que a intimação tivesse como finalidade prender o senador posteriormente. O episódio ocorre em um cenário de reorganização política após a eleição presidencial e de discussões sobre a atuação da oposição nos próximos anos. Flávio afirma que pretende continuar participando desse debate mesmo permanecendo no exterior. Seus adversários, por sua vez, defendem o cumprimento das decisões judiciais e o andamento das investigações. A questão central continua sendo a necessidade de esclarecer as circunstâncias da saída do parlamentar e garantir que as medidas adotadas pelas autoridades respeitem os procedimentos legais. Enquanto isso, o relato sobre as palavras de Jair Bolsonaro permanece como um dos aspectos mais comentados da entrevista, por revelar a preocupação que Flávio afirma ter compartilhado com o pai antes de deixar o Brasil.