A senadora Soraya Thronicke (PSB-MS) voltou a comentar sua relação com a família Bolsonaro e surpreendeu ao reconhecer uma característica positiva do ex-presidente Jair Bolsonaro, apesar das divergências políticas acumuladas nos últimos anos. Durante entrevista ao programa Galãs Feios, exibido no canal do Metrópoles no YouTube, a parlamentar afirmou que Jair possui carisma e capacidade de atrair a atenção do público. Entretanto, a avaliação não foi estendida ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que recebeu críticas diretas da ex-aliada de seu pai. Soraya afirmou que Flávio não possui as mesmas características pessoais do ex-presidente e questionou sua capacidade de despertar interesse entre os eleitores. As declarações foram repercutidas pelo Pleno.News na sexta-feira (6 de novembro) e ganharam destaque pelo histórico de rompimento entre a senadora e o grupo político bolsonarista. A manifestação ocorreu poucas semanas depois da eleição presidencial de outubro, disputada por Flávio, e da tentativa frustrada de Soraya de conquistar um novo mandato no Senado. Embora tenha reconhecido o carisma de Jair Bolsonaro, a parlamentar não sinalizou qualquer intenção de reconstruir sua antiga aliança política.
Durante a entrevista, Soraya comparou diretamente a personalidade do ex-presidente com a de seu filho. Ao comentar a maneira como os dois se apresentam publicamente, declarou: “Bem ou mal, Jair Bolsonaro tem um carisma”. Em seguida, afirmou que Flávio não possui o mesmo atributo e utilizou a expressão “não tem sex appeal” para descrever sua percepção sobre o senador. A escolha das palavras chamou atenção por envolver uma avaliação pessoal sobre características que, na opinião da parlamentar, podem influenciar a capacidade de um político de conquistar apoio popular. O comentário não representa uma análise baseada em pesquisas eleitorais ou indicadores objetivos de popularidade, mas uma interpretação apresentada por alguém que já participou do grupo político liderado pelo ex-presidente. O carisma é frequentemente associado à habilidade de estabelecer conexões emocionais com o público, mobilizar apoiadores e transmitir mensagens de maneira reconhecível. Entretanto, essa característica não determina isoladamente o desempenho de um candidato nas urnas. Resultados eleitorais também dependem de propostas, alianças, avaliação dos governos, condições econômicas e outros fatores. Por isso, a comparação feita por Soraya deve ser compreendida como uma opinião política, e não como uma conclusão definitiva sobre a capacidade eleitoral de Flávio Bolsonaro.
A declaração ganha relevância especialmente pelo histórico da senadora com Jair Bolsonaro. Soraya Thronicke foi eleita para o Senado em 2018, representando Mato Grosso do Sul, durante a eleição que levou o então candidato do PSL à Presidência da República. Naquele período, ela se apresentava como uma representante do campo conservador e utilizava sua proximidade com Bolsonaro como um dos elementos centrais da campanha. Depois da vitória eleitoral, integrou a base de apoio do governo e defendeu diferentes iniciativas associadas à administração federal. Entretanto, a relação começou a se deteriorar ao longo do mandato, especialmente durante as divergências entre Bolsonaro e integrantes de seu antigo partido. O distanciamento tornou-se mais evidente durante a pandemia de Covid-19, quando a parlamentar passou a questionar publicamente decisões e declarações do então presidente. Em 2022, Soraya disputou a Presidência da República pelo União Brasil e protagonizou confrontos com Bolsonaro durante debates eleitorais. Na ocasião, os dois trocaram críticas sobre suas trajetórias e posicionamentos políticos. O rompimento se consolidou nos anos seguintes, com a senadora adotando uma postura cada vez mais crítica ao bolsonarismo. Assim, o reconhecimento recente de uma qualidade pessoal do ex-presidente não representa uma mudança automática de suas convicções ou de suas alianças.
A trajetória política de Soraya passou por novas transformações durante a preparação para as eleições de 2026. Depois de integrar o PSL e o União Brasil, a parlamentar passou pelo Podemos e se filiou ao Partido Socialista Brasileiro (PSB), legenda que integra a base de apoio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A mudança ocorreu em meio às articulações para sua tentativa de reeleição ao Senado por Mato Grosso do Sul. Durante a campanha, Soraya recebeu apoio político de Lula e declarou publicamente sua preferência pela continuidade do governo petista. A aproximação provocou críticas de antigos aliados conservadores, que questionaram sua mudança de posicionamento ao longo dos anos. Apesar da nova composição partidária, a senadora não conseguiu conquistar outro mandato. Na eleição de 4 de outubro, terminou a disputa na quarta colocação, com aproximadamente 13,07% dos votos válidos, segundo os resultados divulgados pela imprensa. As duas vagas disponíveis foram conquistadas por Reinaldo Azambuja e Capitão Contar, ambos do Partido Liberal. Vander Loubet, do PT, ficou em terceiro lugar. Com esse resultado, Soraya deverá encerrar seu mandato em janeiro de 2027, completando oito anos de atuação no Senado Federal. A derrota eleitoral também acrescentou um novo elemento às discussões sobre sua trajetória e sobre os efeitos de seu afastamento do grupo bolsonarista.
A entrevista ao Galãs Feios também abordou os motivos que levaram Soraya a romper com Jair Bolsonaro. A parlamentar voltou a comentar divergências pessoais e políticas surgidas durante sua passagem pela base de apoio ao ex-presidente. Em manifestações anteriores, afirmou ter se decepcionado com decisões adotadas durante o governo e com o comportamento de integrantes do grupo político. Em outubro de 2026, Soraya também relatou ter recebido informações sobre uma suposta ameaça de divulgação de dados pessoais de um familiar durante a campanha presidencial de 2022. Essa acusação corresponde ao relato da senadora e não deve ser apresentada como fato judicialmente comprovado. Na conversa mais recente, ela mencionou ainda que sua trajetória política provocou diferenças de opinião dentro da própria família, afirmando que nem todos os parentes torceram por sua vitória na eleição deste ano. As declarações mostram que o rompimento com Bolsonaro envolveu questões que ultrapassaram as divergências partidárias convencionais. Apesar disso, Soraya demonstrou ser capaz de reconhecer uma característica que considera relevante no antigo aliado, mesmo mantendo críticas à sua atuação política. Essa distinção ajuda a explicar o sentido de sua manifestação: reconhecer a capacidade de comunicação de um adversário não significa concordar com suas propostas ou decisões.
A repercussão das declarações de Soraya Thronicke demonstra como as avaliações pessoais sobre lideranças políticas continuam ocupando espaço no debate público brasileiro depois das eleições de 2026. A comparação entre Jair e Flávio Bolsonaro envolve dois personagens que compartilham uma trajetória familiar e partidária, mas possuem estilos próprios de comunicação e atuação. Enquanto Jair construiu sua projeção nacional por meio de discursos diretos, manifestações públicas e forte presença nas redes sociais, Flávio desenvolveu parte de sua carreira política no Legislativo e assumiu maior protagonismo nacional durante a disputa presidencial deste ano. A avaliação sobre a capacidade de cada um de mobilizar eleitores depende de diferentes indicadores e não pode ser definida apenas pela opinião de uma adversária política. Para Soraya, a entrevista também representa uma oportunidade de explicar seu afastamento do bolsonarismo e refletir sobre a experiência acumulada durante seus oito anos de mandato. Embora tenha perdido a reeleição, a parlamentar permanece no exercício de suas funções até o início da próxima legislatura. Até o momento, não há indicação de que suas declarações tenham resultado em uma aproximação com a família Bolsonaro ou em mudanças de alianças partidárias. O principal acontecimento é o reconhecimento público do carisma de Jair Bolsonaro acompanhado de críticas à personalidade política de Flávio. O episódio reforça que adversários podem reconhecer atributos pessoais uns dos outros sem abandonar suas divergências, especialmente em um ambiente político marcado por disputas e mudanças de posicionamento.






