Tony Bellotto faz revelação sobre sua vida após diagnóstico de câncer

Bellotto conta que procura manter uma convivência tranquila com a doença. Para explicar sua postura diante do diagnóstico, recorre a um verso do poeta Paulo Leminski: “Não discuto com o destino, o que pintar eu assino”. Segundo o músico, a possibilidade da morte sempre fez parte da condição humana, mas o câncer tornou essa realidade mais próxima. Em vez de paralisá-lo, essa consciência fez com que passasse a prestar mais atenção às experiências cotidianas.

O guitarrista afirma que não tem medo da morte, embora sinta angústia ao pensar no sofrimento que poderia enfrentar no momento final. Ele também se preocupa com o impacto que sua ausência teria sobre familiares e pessoas próximas. Por isso, procura demonstrar que está bem e preparado para enfrentar o que acontecer. Bellotto ressalta que prefere continuar vivendo, mas tenta não permitir que a incerteza sobre o futuro impeça sua rotina.

A música ocupa um papel importante nesse processo. O artista afirma que, quando está tocando, deixa de pensar na doença e consegue se concentrar inteiramente na atividade musical. Para ele, subir ao palco durante os shows dos Titãs funciona como uma experiência terapêutica. A arte, segundo sua percepção, oferece uma forma complementar de lidar com situações difíceis, especialmente quando o paciente precisa conviver com limitações e incertezas.

Aos que recebem recentemente um diagnóstico de câncer, Bellotto recomenda calma, coragem e pragmatismo. Ele considera importante evitar que o desespero domine as decisões e defende que o paciente procure compreender as possibilidades oferecidas pela ciência. O músico também menciona os avanços nas pesquisas sobre o câncer de pâncreas, incluindo o medicamento daraxonrasib, aprovado pela agência reguladora dos Estados Unidos, a FDA, e que aguardava autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) na ocasião da entrevista.

Bellotto informou que não utiliza o daraxonrasib, mas considera urgente que o medicamento seja aprovado no Brasil e tenha acesso ampliado. Ele chama atenção para os preços elevados, que atualmente dificultam o acesso de grande parte dos pacientes. Na avaliação do músico, tratamentos considerados importantes não deveriam permanecer restritos a quem tem condições financeiras de pagar por eles.

Outro ponto destacado pelo artista é o estigma associado ao câncer. Como escritor, ele observa que a doença, especialmente a de pâncreas, costuma aparecer em obras de ficção como recurso para indicar que determinado personagem terá um destino trágico. Para Bellotto, esse tipo de representação contribui para reforçar o medo em torno do diagnóstico. Ele defende que a sociedade passe a tratar o câncer com menos preconceito e reconheça que existem tratamentos capazes de permitir uma vida cotidiana ativa, embora as possibilidades variem conforme cada caso.

O músico também elogia o papel dos profissionais de saúde no acolhimento dos pacientes. Para ele, médicos não devem se limitar aos procedimentos e às informações clínicas, mas também precisam considerar a dimensão humana do tratamento. Bellotto afirma que bons profissionais conseguem transmitir esperança e ajudar o paciente a preservar sua identidade, mesmo diante de uma doença grave. Ele menciona ainda a importância dos cuidados paliativos, que buscam oferecer assistência e qualidade de vida em diferentes etapas do tratamento.

Na próxima sexta-feira (6), Bellotto levará essas reflexões a uma plateia de aproximadamente 4 mil médicos. Ele dará uma aula magna durante o Congresso Brasileiro de Oncologia Clínica, promovido pela Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), no Rio de Janeiro. A apresentação abordará a relação entre vida, ciência, arte e a dimensão humana do cuidado. O músico pretende compartilhar sua experiência como paciente, sem se colocar na posição de especialista médico.

Ao falar sobre a contribuição da arte, Bellotto destaca a imaginação como uma ferramenta fundamental para artistas e também como uma capacidade que pode ampliar a maneira de compreender o mundo. Ele cita a importância de fazer perguntas inesperadas e reconhece que ciência e arte atuam de formas diferentes, mas podem se complementar. Na própria experiência, afirma que nunca sentiu que a medicina o deixou sem respostas, enquanto a música ajudou a preencher um espaço emocional durante o tratamento.

Mesmo sem se considerar livre da doença, o guitarrista diz que sua rotina permanece semelhante à de outras pessoas. A diferença, segundo ele, está na intensidade com que passou a aproveitar o presente. O diagnóstico não eliminou seus planos nem sua relação com a música e a literatura, mas tornou mais evidente a importância das experiências simples. É nesse sentido que Bellotto resume sua percepção sobre a vida após o câncer: cada manhã passou a ter um valor ainda maior.