Vorcaro enviou nota secreta a Flávio antes de prisão: ‘Tá muito difícil’

Uma análise minuciosa dos registros do celular do banqueiro Daniel Vorcaro, realizada pelo UOL, trouxe à luz mensagens até então desconhecidas trocadas com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) no dia anterior à sua primeira prisão, em 17 de novembro de 2025. Os dados revelam não apenas o conteúdo das conversas, mas também a técnica cuidadosamente utilizada para tentar apagar os rastros das comunicações — o mesmo método empregado nas trocas com o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal.

Mensagem enviada por imagem de visualização única

No dia 16 de novembro de 2025, Flávio Bolsonaro enviou a Vorcaro duas fotos de visualização única seguidas de uma mensagem: “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz! Abs!”. A resposta do banqueiro veio minutos depois, mas não de forma direta: ele digitou o texto no aplicativo de notas do celular, capturou a tela e enviou a imagem por WhatsApp como conteúdo de visualização única. “Vai dar certo essa semana. O cara que mandei a grana não liquidou, e eu estou num momento difícil demais. Foram duas parcelas que mandei e ele não liquidou. Mas já organizei pra fazer de novo na terça. Está muito difícil mas vamos vencer. Se eu passar da semana que vem aí resolvemos tudo em seguida”, escreveu.

Técnica deixa vestígios no aparelho

Embora Vorcaro tenha apagado o texto do bloco de notas e a imagem não tenha ficado salva na galeria de fotos, o iPhone guarda temporariamente um arquivo em formato PDF de cada captura de tela realizada. Ao cruzar os metadados desses arquivos com o registro de cada ação executada no aparelho, os jornalistas conseguiram reconstruir com precisão cronológica os momentos da troca de mensagens. A linha do tempo mostra que Vorcaro desbloqueou o celular às 15h51, digitou a mensagem em aproximadamente 70 segundos, tirou o print e o enviou ao senador em menos de 20 segundos. A resposta de Flávio Bolsonaro veio no minuto seguinte: “Amém!”. As defesas de ambos foram procuradas, mas não se manifestaram sobre o conteúdo das mensagens.

Conversa está ligada a financiamento de filme

O contexto da troca de mensagens remete ao projeto do filme Dark Horse, que retrata a trajetória política de Jair Bolsonaro rumo à Presidência. Vorcaro havia assumido o compromisso de destinar R$ 132 milhões ao projeto, em 14 parcelas. Até o momento de sua prisão, haviam sido transferidos sete repasses, totalizando R$ 67 milhões. A Polícia Federal investiga se os recursos foram de fato aplicados na produção cinematográfica ou se tiveram outra destinação, com suspeitas de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção. As mensagens revelam que Flávio Bolsonaro manteve contato frequente com o banqueiro sobre o tema durante aquela semana, inclusive tentando falar por ligação nos dias 13, 14 e 15 de novembro, sem obter sucesso. No dia 16, ele conseguiu estabelecer contato por mensagens visuais pouco antes da resposta de Vorcaro.

Preocupação com ação policial já era conhecida

O que torna o episódio ainda mais relevante é que as mensagens revelam que Vorcaro já tinha conhecimento iminente sobre a ação que resultaria em sua prisão. Em trocas de mensagens com o ministro Alexandre de Moraes, recuperadas pela investigação, ele demonstrava apreensão já na noite de 15 de novembro: “Não conseguimos reverter isso com Paulo ou Andrei? Muita sacanagem isso. Isso em Brasília?”, escreveu. No dia seguinte, ele viajou à capital para um encontro com o ministro, combinado previamente também usando a mesma técnica de envio por imagem de visualização única. A frase de Vorcaro para Flávio Bolsonaro — “se eu passar da semana que vem aí resolvemos tudo em seguida” — ganha, portanto, um sentido de urgência diante de uma ameaça que ele já sabia estar próxima.

Tentativas de adiar desfecho e encontro em Brasília

As mensagens também mostram que Vorcaro buscava formas de adiar as consequências da investigação. “Se o Andrei conseguir atrasar para a outra semana, pois tem feriado, o banco não quebra. Tenta chamar ele e sensibilizar isso se achar possível”, pediu ao ministro Alexandre de Moraes às 16h57 do dia 16. O relatório da Polícia Federal, encaminhado ao Supremo Tribunal Federal por determinação do ministro André Mendonça, reuniu o conjunto das comunicações recuperadas. Até o momento, apenas as mensagens enviadas por Vorcaro foram identificadas, o que demonstra os desafios da investigação diante de métodos deliberadamente adotados para dificultar o rastreamento de conversas.

Detalhes que reconstroem um momento de tensão

Os registros do celular permitem reconstruir até detalhes cotidianos daquela tarde em Brasília: a música que tocava no aparelho quando ele recebeu a mensagem de Flávio Bolsonaro, o tempo exato de cada ação na tela, o ritmo da digitação. Mais do que curiosidades, esses elementos constroem o quadro de um homem que, mesmo buscando manter sigilo sobre suas comunicações, não imaginava que o próprio aparelho digital guardaria vestígios suficientes para reconstruir o que havia sido apagado. O caso segue em investigação no Supremo Tribunal Federal, e cada elemento recuperado contribui para esclarecer a natureza das relações e transações que estavam em curso nos dias que antecederam a operação policial.