Livro de agente da Polícia Federal revela bastidores dos 580 dias de prisão de Lula em Curitiba

A prisão de Luiz Inácio Lula da Silva, em abril de 2018, voltou ao centro das discussões após o lançamento de um livro que apresenta detalhes pouco conhecidos daquele período. Escrito pelo agente da Polícia Federal Jorge Chastalo Filho, o livro “Banho de Sol: os 580 dias da prisão de Lula” reúne relatos de quem acompanhou de perto a rotina do então ex-presidente durante sua permanência na sede da PF, em Curitiba.

Com 592 páginas, a publicação chegou às livrarias em 3 de novembro de 2026, pela editora WMF Martins Fontes. A obra chama atenção por apresentar episódios que vão além dos acontecimentos já conhecidos pelo público, incluindo conversas, cuidados com a segurança, momentos familiares e situações vividas pelos profissionais responsáveis pela custódia de Lula.

Um dos episódios que mais despertaram interesse aparece logo nos primeiros capítulos. Chastalo relata que, durante o transporte de helicóptero entre o Aeroporto Afonso Pena, em São José dos Pinhais, e a sede da Polícia Federal, algumas pessoas utilizaram a frequência de comunicação da aviação para fazer manifestações contra Lula.

Entre as frases ouvidas estavam expressões como “Joguem esse lixo pela janela” e “Não o soltem nunca mais”. O trajeto durou aproximadamente 15 minutos e foi marcado por manifestações de hostilidade. Segundo o relato, o comandante da aeronave reagiu às mensagens e pediu que os demais profissionais respeitassem o trabalho da equipe, mantendo a comunicação restrita aos assuntos necessários para a operação.

O episódio ajuda a compreender o ambiente de forte divisão política que marcou aquele momento da história brasileira. A chegada de Lula a Curitiba aconteceu em meio a uma intensa mobilização pública, com opiniões bastante diferentes sobre a decisão judicial.

Outro ponto apresentado no livro envolve a organização da estrutura que receberia Lula. De acordo com Chastalo, foram necessários três dias de preparação e a elaboração de quatro planejamentos diferentes. Mesmo com os preparativos, os profissionais envolvidos ainda tinham dúvidas sobre como os acontecimentos se desenvolveriam.

Ao chegar à sede da PF, Lula teria permanecido em silêncio e demonstrado abatimento. O agente conta que também se sentiu desconfortável diante da situação, principalmente por perceber a dimensão daquele momento. A cela destinada ao ex-presidente tinha estrutura simples, com cama de solteiro, mesa, cadeira e um armário antigo. As janelas possuíam grades e correntes que limitavam bastante a abertura.

Até mesmo os objetos pessoais passaram por cuidados específicos. Alguns itens de higiene, como barbeador e cortador de unhas, não ficavam disponíveis permanentemente, sendo entregues quando solicitados. O livro também apresenta detalhes sobre a alimentação de Lula durante os primeiros dias de permanência na unidade.

Chastalo relata que, no segundo dia, decidiu encomendar uma refeição em um restaurante próximo. A escolha estava relacionada à preocupação com a segurança alimentar do ex-presidente, diante da possibilidade de algum problema envolvendo a comida preparada na própria instituição.

Outro detalhe foi o primeiro banho de sol, realizado somente no quarto dia. O espaço utilizado era cercado por muros altos e tinha poucas possibilidades de circulação. Lula demonstrou insatisfação com o ambiente e fez comentários sobre as condições do local. A situação aparece na narrativa como parte das dificuldades de adaptação à rotina de privação de liberdade.

Apesar do contexto político, Chastalo dedica espaço a episódios pessoais envolvendo Lula e seus familiares. Um dos relatos menciona as visitas do neto Arthur, com quem o ex-presidente costumava desenhar durante os encontros. O menino também gostava de brincar com o avô, e Lula chegou a pedir uma bola para compartilhar esses momentos.

Arthur morreu em abril de 2019, aos sete anos. A perda familiar foi um dos acontecimentos mais delicados daquele período.

O agente também descreve conversas sobre política, comentários descontraídos e situações em que Lula demonstrava irritação. Entre elas, um episódio envolvendo o desaparecimento de seu passaporte, assunto que chegou ao conhecimento do ex-presidente durante uma visita de senadores.

A decisão de lançar o livro somente depois das eleições presidenciais de 2026 também merece destaque. Segundo a editora, a intenção foi evitar que a publicação fosse utilizada como instrumento de campanha ou peça de disputa eleitoral.

A história da prisão de Lula continua sendo um dos capítulos mais debatidos da política brasileira. O petista deixou a prisão em novembro de 2019, após uma mudança no entendimento do Supremo Tribunal Federal sobre a execução da pena antes do esgotamento dos recursos. Em 2021, o STF anulou as condenações relacionadas à Lava Jato em Curitiba, por entender que a 13ª Vara Federal não tinha competência para julgar aqueles casos.

Com os relatos de Jorge Chastalo Filho, o público ganha acesso a uma perspectiva diferente sobre os 580 dias de permanência de Lula na sede da Polícia Federal.

Mais do que recuperar episódios de um período conhecido, a publicação apresenta detalhes da convivência entre o agente e o então ex-presidente, mostrando como acontecimentos políticos de grande repercussão também envolvem situações cotidianas, decisões práticas e experiências pessoais.

A obra acrescenta novos elementos a uma história que continua despertando interesse no Brasil, especialmente pela importância que a prisão de Lula teve no cenário político e institucional do país.